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Encontre o erro na frase: De qual país virá a fórmula que salvará a educação brasileira?

Encontre o erro na frase: De qual país virá a fórmula que salvará a educação brasileira?

Créditos da foto: Freepik

Cléssio Bastos
Fundador Looking4heroes.

Em primeiro lugar, a educação brasileira precisa de salvação? Bem, vamos aos dados. O Censo da Educação 2015 evidenciou que, embora muito se avançou, ainda há muito que avançar nesse assunto. Para surpresa de muitos, o investimento em educação no país tem sido superior à média dos países avaliados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil dedica hoje 5,6% do PIB à educação. O que a realidade mostra é que, embora acima da média, tais investimentos ainda estão bastante aquém do necessário e, além de aumento dos valores investidos, precisamos desenvolver eficiência nesse sentido. Dado estarrecedor é que, embora estejamos acima da média em investimentos gerais com educação, nosso aluno custa $2,7 mil ao ano, a média dos países que compõem a OECD é de $9,5 mil, demonstrando que o investimento não chega a quem deve ser o foco.

Ainda de acordo com o último Censo Educação, o Brasil foi o país que mais subiu sua média de pontuação no PISA (Programa Internacional de Avaliação do Aluno). Em um ranking formado por 65 países, ocupamos atualmente a posição 58, amargando as últimas posições. Ainda temos cerca de 3 milhões de alunos fora da escola, a formação do professor ainda é muito precária no país, tanto a qualidade da formação quanto a adequação dessa formação à área de atuação, esses são os fatores que vêm atravancando uma evolução a passos mais largos do ensino. Nossas escolas enfrentam dificuldades em levar o aluno a realizar bem o ato da leitura, números de 2012 dizem que 27% da população não compreendem textos simples, o analfabetismo funcional é um fantasma que ronda nosso ensino.

Como teste a cerca da capacidade de compreensão do leitor, proponho o desafio apresentado no subtítulo deste texto, “encontre o erro na frase: de qual país virá a fórmula que salvará a educação brasileira?”, reflitamos:

Em primeiro lugar, paremos de simplesmente importar fórmulas. Educação e customização são palavras amigas, precisam andar juntas. Boas medidas precisam sim inspirar os caminhos que serão percorridos rumo ao sucesso, mas troquemos cópia por inspiração e, nesse sentido, inspiremo-nos em ações desenvolvidas em solo nacional, já customizadas para nossa realidade, concebidas por profissionais conhecedores das nossas particularidades.

Em educação não existem fórmulas, segundo erro. Em uma única sala de aula o professor precisa realizar customizações/adaptações variadas se quiser alcançar um número mínimo de alunos. Tais ações ainda não garantem que esse mínimo seja tocado. E o Brasil com sua vocação de administração pública centralizadora, com seus cerca 37.826.565 alunos matriculados, há de alcançá-los?

A realidade extremamente diversa do país exige uma autonomia praticada desde a gestão dos recursos até à atuação das escolas nas realidades em que estão inseridas. Autonomia que permita surgir ações moldadas para realidades específicas e não alcançadas de forma satisfatória até então. Autonomia que permita inserir a comunidade no processo de ensino, que permita tratar de forma personalizada problemas que comprometem os números gerais da educação brasileira.

Os números do último Censo da Educação mostram que 95% dos alunos saem do Ensino Médio sem conhecimentos básicos sobre Matemática. Os fatores responsáveis por esse número são diversos e atuam de forma variada nas diferentes realidades do território nacional, mas precisam ser tratados de forma específica, de modo a atingir o aluno na mais remota escola do território nacional.

Sobre fuga às fórmulas, autonomia e alcançar o aluno individualmente, em 2014 surgiu em Cavalcante, cidade do interior de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, famosa por suas cachoeiras e por abrigar em seu território uma das mais recentes comunidades quilombolas descobertas, a comunidade Kalunga, uma escola que aponta para o poder das medidas locais e personalizadas. A Escola Janelas foi criada e é gerida por uma associação de mães, pais, educadores e colaboradores com uma proposta de educação inovadora diante da realidade do município com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do estado. Sem fins lucrativos, aberta a alunos em situação vulnerável, com gestão democrática e forte vocação para a sustentabilidade, a escola vem buscando meios para ampliar sua ação de sucesso na comunidade.

Atualmente a escola atende 40 crianças com uma mensalidade simbólica, sendo que 20 estudam por bolsa. Voltada para o desenvolvimento de habilidades e atenta às demandas da realidade local, a instituição é um desses exemplos a inspirar ações que promovam a melhoria do sistema brasileiro de ensino. A Escola Janelas certamente não é a fórmula, eles mesmos não acreditam em fórmulas, mas trata-se de um interessante modelo de educação que vem crescendo no mundo e sendo customizado para realidades em diversos lugares. Somente na Chapada dos Veadeiros já existem duas escolas dessa linhagem, inspiradas na icônica Escola da Ponte. Mas quais os maiores desafios enfrentados por escolas como essas, será que falta de autonomia?

De qual país virá a fórmula que salvará a educação brasileira? Menos fórmulas, menos importações, mais inspiração e autonomia.

Para conhecer mais sobre a Escola Janelas: http://www.escolajanela.com.br/